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Resort com vista para Israel é construído no Líbano

Investimento milionário, Forte Wazzani quer trazer turistas e empregos.
Mas insegurança trazida pela fronteira é motivo de preocupação.

As colinas verdes e rochosas nos arredores desta cidade, no sul do Líbano, formam uma das fronteiras mais voláteis do mundo. Tem havido uma tensão especial aqui desde que Israel acusou o Hezbollah de obter mísseis Scud da Síria, no mês passado, e muitos libaneses dizem acreditar que em breve a guerra explodirá aqui novamente.

Mas é aqui, a apenas alguns metros das barreiras da fronteira israelense e postos militares, que um novo e extravagante resort está tomando forma, ao longo do rio Wazzani. A infraestrutura abriga três piscinas, chalés com piso de mármore e um restaurante e bar estilo marroquino. Soldados israelenses às vezes caminham até perto do rio para observar, maravilhados, operários sírios trabalhando nas cascatas artificiais e esplanadas de pedra.

“Muita gente diz que somos loucos de colocar milhões de dólares nisso”, disse Khalil Abdullah, o confiante empreendedor libanês de 58 anos que está construindo o Forte Wazzani, como é chamado o resort. Ele dissipa qualquer comentário sobre guerra, afirmando que o resort trará turistas e os necessários empregos.

O projeto ilustra a estranha dualidade da vida aqui, à medida que os libaneses se preparam tanto para a guerra quanto para a possibilidade da temporada de alta estação turística. De certa forma, nada é novo: o sul do Líbano foi ocupado por Israel por 18 anos, e o verão sempre traz temores de um novo conflito.
Porém, nos últimos meses, as crescentes tensões envolvendo o programa nuclear do Irã e o arsenal do Hezbollah levaram muitos analistas a crer que uma guerra regional é inevitável, e que o Líbano – como muitas vezes no passado – será a arena. A crescente pressão por sanções contra o Irã, e a possibilidade de um ataque israelense contra as instalações nucleares iranianas, são apenas alguns dos fatores que poderiam deflagrar outra guerra com o Hezbollah, o grupo militante xiita que o Irã ajudou a criar e continua a financiar.

Os líderes de Israel e do Hezbollah já deixaram claro que acreditam que seu próximo conflito será muito mais violento e decisivo do que qualquer outro conflito passado. Depois que o presidente israelense Shimon Peres acusou a Síria de armar o Hezbollah com mísseis Scud, moradores de vilas no sul do Líbano começaram a estocar alimentos, temendo o pior.

“Acho que desta vez Israel está determinado a acabar com a situação de uma vez”, disse Jamal Bazzi, mãe de três filhos em Bint Jbail, uma cidade perto da fronteira que foi amplamente destruída na guerra do verão de 2006 entre Israel e o Hezbollah. “Tenho outra casa em Sidon e já estoquei comida, água e gás, assim estarei pronta se a guerra explodir.”

Em um passeio pelo sul do país, várias cidades libanesas estavam misteriosamente vazias. Existem rumores frequentes de uma intensificação no treinamento do Hezbollah.

Mesmo assim, muitos libaneses do sul continuam destemidos. Nos domingos, milhares de pessoas podem ser vistas fazendo churrasco e piquenique em um novo parque, próximo da vila de Marun al Ras, bem na frente da fronteira com Israel. O parque, que custou US$ 1,5 milhões, foi pago pelo Irã e será formalmente inaugurado em 25 de maio – feriado oficial aqui, uma em celebração à retirada israelense do Líbano em 2000.

Abdullah, cujo avô era dono de um grande pedaço de terra em ambos os lados da atual fronteira, disse que sonhava em construir um resort aqui há 15 anos. Um aumento acentuado na construção civil está ocorrendo em grande parte do Líbano, e no último verão cerca de 2 milhões de turistas visitaram o país. Abdullah trabalhou como operário de obras na Costa do Marfim por quatro décadas antes de voltar ao seu país de origem, no ano passado. Agora, ele enxerga o sul como uma grande oportunidade de investimento.

A paisagem é magnífica, com vistas espetaculares das Colinas de Golã, ocupadas por Israel.

Pastores podem ser vistos cuidando de cabras entre as oliveiras e laranjais, e o rio Wazzani, de cor azul clara, corre através de um estreito vale adornado por árvores cheias de flores.

Quando questionado se os turistas poderiam estar ansiosos com a possibilidade de uma guerra, Abdullah riu e disse que as pessoas já estavam reservando o resort para eventos. Estrangeiros precisam de autorização do exército libanês para visitar a área, mas Abdullah disse que o resort poderia consegui-la sem problemas. O Forte Wazzani será formalmente inaugurado em junho, e continuará se expandindo, com um total de 60 quartos até o final do próximo ano, ele disse.

“Também estamos construindo um centro de convenções. Espero que um dia possamos sediar diálogos de paz aqui”, disse Abdullah.

O resort parece ter sido elaborado para passar longe do estereótipo do sul do Líbano como uma terra de impiedosos guerreiros do Hezbollah e mulheres cobertas por véu. Durante um almoço festivo, com pescado local e cerveja, Abdullah descreveu seus planos para um opulento bar e restaurante. Haverá prédios na forma de uma igreja e uma mesquita, para enfatizar a diversidade do Líbano, além de uma palhoça no estilo africano com teto de palha.

“Não há Hezbollah aqui – nossa resistência é obter a paz”, disse Yousef Hamzi, o engenheiro do projeto, enquanto levantava um copo de uísque. A irmã de Abdullah, Zahra, vestida com uma blusa florida e calça jeans, franziu as sobrancelhas, desaprovando.

Mais tarde, Abdullah liderou um grupo de visitantes até a escarpa perto do resort, onde ele planeja construir mais chalés, à vista não apenas de dois ameaçadores postos militares israelenses, mas também de casas israelenses, a apenas alguns metros de distância. Algumas pessoas, argumentou Abdullah, são atraídas pela ideia de passar férias em um lugar tão histórico.

Zahra Abdullah, caminhando sobre as pedras com salto alto, apontou as históricas planícies Houla ao sul, onde os campos de seu avô agora fazem parte de Israel. Com exceção das torres de vigilância de Israel, a terra praticamente está intocada, um panorama de montes verdes, pessegueiros e laranjeiras à luz dourada do entardecer.

“Se houver uma guerra, vai ser terrível”, disse Zahra. “Mas todo mundo pode ver que estamos plantando amor, e os outros estão plantando bombas”.

 

Fonte: G1 (Globo)

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